Governo do Distrito Federal
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26/08/20 às 14h54 - Atualizado em 27/08/20 às 14h06

Monitoramento de barbeiros evita transmissão da Doença de Chagas

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Casos assintomáticos levam décadas para se manifestarem na forma mais grave da doença

 

JOSIANE CANTERLE, DA AGÊNCIA SAÚDE DF

 

Insetos são grandes transmissores de doenças e precisam ter suas populações constantemente monitoradas para evitar a ocorrência de casos. Um deles é o barbeiro, ou triatomíneo, que transmite o agente infeccioso da doença de Chagas, uma enfermidade que pode levar mais de 20 anos para se manifestar. O protozoário (parasito) causador da doença é o Trypanosoma cruzi e está presente nas fezes do barbeiro.

 

Alguns casos da doença não têm cura, mas têm tratamento para amenizar os sintomas e é oferecido pela rede pública de saúde. No Distrito Federal foram identificados três casos agudos, todos oriundos de outras unidades da federação, nenhum autóctone, entre os anos de 2014 e 2019.

 

De hábitos noturnos, o barbeiro alimenta-se de sangue, seja humano ou animal, em todas as fases da sua vida. É enquanto ele suga que seu abdômen se expande comprimindo o intestino e fazendo com que saiam as fezes que podem estar contaminadas pelo protozoário.

 

O barbeiro (foto acima) é o principal transmissor da doença de chagas – Foto: Peter Ilicciev/Fiocruz

“O barbeiro pica a pessoa, que geralmente está dormindo, a pessoa sente coceira, arranha a pele e é aí que pode haver o contato do parasita presente nas fezes com a pele lesionada, contaminando a corrente sanguínea. É um processo complexo e não tão simples de acontecer”, explica a bióloga e pesquisadora em Ciências da Saúde, Vilma Ramos, que alerta: “há o risco e precisa ser monitorado”.

 

Cuidados

 

O barbeiro pode ser encontrado tanto dentro como fora de casa. Geralmente os insetos acabam dentro das casas e apartamentos à noite pois são atraídos pela luz das lâmpadas e há maior presença nas áreas rurais e próximo às matas, seu habitat natural.

 

O trabalho realizado pela Secretaria de Saúde no controle da doença de Chagas inclui diferentes áreas: a Vigilância Ambiental, no monitoramento e investigação dos locais de incidência dos barbeiros; a Vigilância Epidemiológica, na investigação e notificação dos infectados; e a assistência, para o tratamento dos doentes.

 

O Programa de Vigilância Entomológica dos Triatomíneos, da Vigilância Ambiental, tem como objetivo atuar no domicílio para interromper a infestação e ou reinfestação dos barbeiros. A partir disso são adotadas medidas operacionais para o controle, que incluem: barreiras físicas, nos locais que possam ser esconderijos deles e ou a intervenção com aplicação de produto químico, quando assim o exigir.

 

Mapeamento da Vigilância Ambiental

 

A equipe já mapeou, no Distrito Federal, sete espécies de barbeiros até hoje. Entre os anos de 2007 e 2019 foram identificados 2,7 mil insetos da espécie, sendo que 97% estavam na zona rural e apenas 3%, na área urbana. Os barbeiros foram localizados em 27 das 31 regiões administrativas existentes nesse mesmo período. “Tem ano que 50% ou mais dos insetos que trazem não são de barbeiros, mas de ‘primos’ deles e que não tem importância para saúde pública”, explica a bióloga.

 

A Vigilância Ambiental do DF mapeou a população de barbeiros e identificou sete espécies – Foto: Peter Ilicciev/Fiocruz

O modelo de Vigilância é baseado no método da mobilização da população, denominada Vigilância Passiva. A orientação é de que os insetos suspeitos de serem barbeiros sejam capturados para envio, sem colocar em álcool ou água, para confirmação da espécie e contaminação. É necessário levar até um Posto de Identificação de Triatomíneos mais próximo para que a Vigilância Ambiental dê início a investigação. A amostra seguirá para laboratório para identificação. Se for confirmado o barbeiro, o agente agendará uma visita/inspeção na casa do morador e, se necessário, aplicará as medidas indicadas para o controle.

 

“A vigilância tem como objetivo controlar a infestação colônias intra e preridomociliares (quintal), pois essa condição aumenta o risco de transmissão da doença”, alerta Vilma.

 

Doença de Chagas

 

A doença de Chagas pode trazer sérias complicações e seus sintomas aparecem em duas fases: a aguda e a crônica. Na fase aguda, o paciente pode ter febre por mais de 7 dias, dor de cabeça, fraqueza intensa e inchaço no rosto e pernas. Já na fase crônica, o tratamento é sintomático.

 

“Reconhecer a fase aguda é muito importante porque, indica que na região está ocorrendo a transmissão ativa da doença e precisa ser imediatamente controlada. Nessa fase existe ainda a possibilidade de tratamento com êxito na cura da doença. Já a fase crônica, não existe tratamento e o paciente pode evoluir para problemas graves, cardíacos ou digestivos”, explica Vilma.

 

Transmissão

 

Ciclo de transmissão da doença pelas fezes do barbeiro – Arte: Rafael Ottoni

Também há outras formas de transmissão da doença além das fezes do barbeiro. É possível haver a contaminação por meio de transfusão sanguínea, transmissão materna, transplantes de órgãos, oral (alimentos contaminados) e acidental (laboratório e acampamentos em matas).

 

Atendimento na rede pública

 

Os pacientes que tiverem sintomas ou desconfiarem que foram picados pelo barbeiro devem buscar atendimento em uma unidade básica de saúde ou, se estiver com sintomas graves, procurar a emergência de um hospital. Feito o diagnóstico da doença, o paciente fará o tratamento com acompanhamento das equipes de saúde até o desfecho do caso. O hospital de referência no DF para o tratamento da doença de Chagas é o Hospital Universitário de Brasília (HuB).

 

O exame de sangue é utilizado para diagnosticar a doença e é realizado pelo Sistema Único de Saúde, assim como a medicação é disponibilizada pela rede pública.

 

Para facilitar a entrega dos insetos existem os Postos de Informação dos Triatomíneos, os PIT. Há 15 postos em área urbana e outros 67 em áreas rurais, inclusive escolas, postos de saúde e ou outras entidades públicas (lista ao final da matéria).

 

História

 

A doença de Chagas foi descoberta em 1.909 pelo brasileiro Carlos Chagas. Ela também é identificada pelo nome científico como tripanossomíase americana. A organização Mundial da Saúde estima que haja de 12 a 14 milhões de infectados pela doença na América Latina. Há registro de pacientes infectados em outros continentes, em sua maioria que foram contaminados durante viagens.

 

EDIÇÃO: JOHNNY BRAGA

REVISÃO: JULIANA SAMPAIO