Governo do Distrito Federal
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17/01/19 às 9h15 - Atualizado em 18/01/19 às 11h14

Distrito indígena de Roraima recebe médicos do DF formados pela Escs

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Recém-formados pela Escola Superior de Ciências da Saúde (Escs), vinculada à Secretaria de Saúde do Distrito Federal, quatro médicos que estudaram na mesma turma decidiram enfrentar o desafio de atuar em uma comunidade indígena localizada a mais de 2 mil quilômetros de distância de Brasília, no Distrito Sanitário Especial Indigena (DSEI) Yanomami/Ye’Kuana, em Roraima.

 

Os profissionais se inscreveram no programa Mais Médicos e passaram a fazer parte do grupo seleto de médicos brasileiros que optam por atuar em áreas de maior vulnerabilidade social, longe dos centros urbanos. Eles cumprem, assim, a lógica da Escs voltada para o SUS, que é a de formar médicos para atender às áreas mais carentes da sociedade.

 

Entre os médicos, a primeira a desembarcar no território indígena foi Ananda Conde, 31 anos, que ingressou na Escs pelas cotas para alunos oriundos de escola pública. Ela foi designada para atuar em uma região próxima à Cabeça do Cachoro, no Pico da Neblina, o lugar mais alto do Brasil. Segundo ela, chegar até lá não é fácil. É necessário utilizar um avião pequeno, que pousa numa pequena pista construída pelo exército.

 

CORAGEM – “A segunda opção para chegar no Pico da Neblina é fluvial, partindo da cidade mais próxima, São Gabriel da Cachoeira (AM), na região do alto Rio Negro. De lá até aqui, primeiro, segue-se por via terrestre, pela BR-307, um trajeto de terra de 85 km, que demora de três a quatro horas. No final desse trajeto, que quase sempre requer veículo com tração 4×4, chega-se ao igarapé Iá Mirim. Passa-se para o rio Iá e, então, para o rio Cauaburis entrando, por fim, no canal de Maturacá. O trajeto fluvial tem cerca de 235 km”, disse.

 

No novo local de trabalho, iniciado em meados de dezembro, Ananda passa 15 dias nas aldeias e 15 dias na cidade. A equipe dela é formada por técnicos de enfermagem e um enfermeiro. “A realidade do distrito indígena é completamente diferente de tudo o que conhecemos no DF. Precisamos ter manejo com a cultura e com as doenças que mais afligem a região”, contou.

 

Onde iniciou o trabalho, Ananda relata que há predominância de pessoas com sarampo, desnutrição infantil grave e tuberculose. Há, também, malária, alcoolismo, pneumonia e oncocercose, que é típica da região.

 

PRÁTICA – Em 40 dias, a profissional já realizou mais de 250 atendimentos, divididos em consultas de urgência, atenção básica e visita domiciliar. Os atendimentos envolveram partos, picada de cobra, lesões diversas, diagnóstico de tuberculose, ferida aberta, fraturas ósseas e pneumonia grave.

 

Ananda, cuja família reside em Brasília, sempre defendeu a causa indígena e confessa o desejo de trabalhar em área de vulnerabilidade. “A vontade cresceu ainda mais após entrar na Escs, onde o ensino é voltado para Atenção Básica. Na minha turma fomos motivados um pelo outro a enfrentar o desafio”, concluiu.

 

O médico Bruno Bessa, 30 anos, chegou em 9 de janeiro a Boa Vista, Roraima. Ele ainda não começou as atividades em campo porque passará, primeiro, por capacitação.“Decidi vir porque a saúde indígena, infelizmente, está bem defasada, recebe pouca assistência e poucos médicos. Os recursos também são mínimos para uma população bastante carente. Quero conhecer essa realidade de perto e tentar fazer alguma diferença para esses povos”, ressaltou o médico.

 

 

Bruno lembrou que eles são os primeiros médicos brasileiros a atuar como médicos de família e comunidade na área Yanomami. “É algo muito novo ainda”, afirmou, ao lembrar dos cubanos que prestavam assistência no local. “Antes dos cubanos, não havia assistência médica desse tipo, só através de campanhas, quando tinha uma epidemia de tuberculose, por exemplo”, completou.

 

VOCAÇÃO – Ana Verônica de Sá Resende, 27 anos, chegou à Roraima em 10 de janeiro de 2019. Assim como a amiga Ananda, Ana sempre se interessou pela causa indígena.

 

Por essa razão, no último ano graduação, decidiu que iria participar do Mais Médicos e se inscreveu para trabalhar em comunidades indígenas. “Sem contar que a minha faculdade é pelo SUS. Por isso, sempre vou defender o atendimento universal e gratuito para todos, inclusive para os povos indígenas”, ressaltou.

 

Yuri Zago Santana, 25 anos, chegou ao seu destino, uma reserva indígena, em 11 de dezembro passado. “Minha pretensão era iniciar uma residência esse ano, mas de uma hora para outra, eu estava fazendo um juramento na conclusão do curso de medicina e o Brasil perdendo oito mil médicos. Eu tive uma formação humanista na Escs, então, acabei me inscrevendo para atuar na comunidade Yanomami, que perdeu essa assistência”, disse.

 

 

Para o médico, a cultura indígena é bastante diferente do que ele conheceu ao longo da vida. “Aqui, temos barreiras linguísticas, porque poucos deles falam português. E essa é uma das maiores reservas indígenas do mundo. Minha expectativa é aplicar o que aprendi na faculdade, que é levar assistência básica de saúde, prevenir doenças e diagnosticá-las no início”, concluiu o profissional.

 

Além dos quatro médicos da Escs, o distrito indígena também receberá assistência de um médico formado pela Universidade de Brasília e outro de uma instituição privada.

 

 ESCS – A Escola Superior de Ciências da Saúde (Escs) oferece cursos de graduação, pós-graduação e extensão na área da saúde.  Atualmente, a Escs oferece cursos de graduação em Medicina e Enfermagem, pós-graduação lato sensu e stricto sensu, incluindo programas de residência médica e multiprofissional.

 

Em 16 anos de existência, a escola já formou mais de 800 médicos e 240 enfermeiros. Seus cursos de graduação obtiveram nota máxima em todas as avaliações realizadas pelo Ministério da Educação/Inep, por meio do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade).

 

São admitidos, anualmente, 80 estudantes por curso (Medicina e Enfermagem), sendo 32 dessas vagas, por curso, reservadas ao sistema de cotas. Na Escs, as cotas são destinadas a estudantes oriundos do ensino público do Distrito Federal.

 

 

Ailane Silva, da Agência Saúde

Fotos: Arquivo pessoal

 

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