Governo do Distrito Federal
Governo do Distrito Federal
24/09/21 às 11h33 - Atualizado em 24/09/21 às 15h03

Doar órgão é doar vida e permitir um novo recomeço

Conheça a história do irmão que recomeçou a vida ao receber o rim da irmã graças a um transplante no ICDF

 

JOHNNY BRAGA I REVISÃO: JULIANA SAMPAIO I DA AGÊNCIA SAÚDE-DF

 

Um gesto que se define com apenas uma palavra: amor. E foi por amor que Aparecida de Freitas doou um rim para o irmão José Gilson de Freitas e mudou a vida dele. Já recuperados do transplante que ocorreu no dia 27 de agosto no Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF), a luta pela sobrevivência em cansativas sessões de hemodiálise ficou no passado para o alívio de Gilson. Hoje, os irmãos recordam-se dos dias difíceis e incentivam a doação de órgãos e tecidos tanto entre pessoas vivas, como o caso deles, quanto para familiares autorizarem a doação de órgão de um parente morto.

 

José Gilson sendo conduzido à sala de cirurgia – Foto: Breno Esaki/Agência Saúde-DF

A campanha Setembro Verde no Distrito Federal carrega a mensagem de impacto “Diga sim à vida”. Ela representa o reinício, um novo ciclo, uma nova vida para quem passa por dias difíceis e tem a oportunidade de recomeçar. “A campanha é uma forma de conscientizar a população sobre a importância da doação de órgãos. Hoje, no Brasil, mais de 45 mil pessoas aguardam por um transplante”, explica a diretora da Central Estadual de Transplantes, Camila Hirata.

 

Ainda segundo a diretora, “o esclarecimento sobre como se tornar um doador, essa conversa em família sobre doação de órgãos é fundamental para que possamos renovar as esperanças dessas pessoas que aguardam por esse sim a doação”, pondera.

 

 

 

Luta pela vida

 

A história de José Gilson na luta pela vida começou entre fevereiro e março de 2012 quando, em uma viagem, descobriu ter nefropatia por IgA. “O pé começou a inchar, aferimos a pressão, procuramos um hospital e nos exames descobri um problema renal. Eu ainda não sabia qual era a doença”, relata ele.

 

Levado ao hospital e já com o diagnóstico da enfermidade, Gilson iniciou um tratamento conservador por indicação médica. A doença foi evoluindo com o passar dos anos e um dos rins funcionava com apenas 20% de sua força. Em 2018, ele pegou uma gripe que evoluiu para pneumonia. O quadro clínico agravou-se, o rim paralisou, e foi necessário começar a fazer hemodiálise.

 

A última sessão de hemodiálise de José Gilson, um dia antes do transplante – Foto: Breno Esaki/Agência Saúde-DF

“Desde que descobri a doença eu já sabia de todos os tratamentos que existem. O transplante é um deles. Eu entrei na fila de doador falecido em junho de 2019”, conta. Foi nesse período que a irmã Aparecida de Freitas  ofereceu-se para doar um rim para o irmão. Ela lembra que, no início, ele não queria que ela se submetesse ao procedimento.

 

“Ficou resistente, mas conversamos com o médico e eu estava ciente dos riscos, sabia o que poderia enfrentar e isso não mudou a minha decisão de ajudar o meu irmão”, recorda Aparecida. Ela conta que a partir da decisão, os dois participaram de palestras, fizeram exames de compatibilidade e todos os procedimentos necessários para viabilizar o transplante. O tempo foi passando, Gilson continuava com certa resistência de a irmã ser a doadora. Ela, porém, estava cada dia mais convicta da decisão que tomou: salvar a vida de José Gilson.

 

Aparecida recebendo as últimas orientações um dia antes do transplante – Foto: Breno Esaki/Agência Saúde-DF

“Eu sou da área da saúde, sou nutricionista e sei que é possível ter uma vida normal com apenas um rim. Então eu decidi doar. As pessoas são resistentes quanto à doação intervivos. Ele, inclusive, era. Quando conversou com um colega de trabalho que doou um rim para a esposa e viu que ele estava bem, mantendo uma rotina, foi que ele se convenceu de que eu poderia ser a doadora”, lembra.

 

Em março de 2020, por causa da pandemia, vários procedimentos deixaram de ser feitos. Os transplantes continuaram, porém com maior rigor, como, por exemplo, a impossibilidade de transplantar um órgão de um doador morto por covid-19. Além disso, essa restrição também vale para o transplante intervivos.

 

“O transplante renal é a melhor alternativa de tratamento para os pacientes com disfunção renal crônica e necessidade de suporte dialítico. O José Gilson, essa pessoa jovem, teve seus planos interrompidos após uma Nefropatia por IgA e a necessidade de hemodiálise. Ele ganhou o rim de sua irmã, com seu grande ato de amor e um ano na fila de espera”, enfatiza a médica nefrologista e coordenadora do transplante renal do ICDF, Helen Souto Siqueira Cardoso.

 

Expectativa

 

“Minha maior expectativa é parar de fazer hemodiálise, pois é muito sofrido. Sei que terei várias restrições para fazer uso de medicamentos [para evitar a rejeição do órgão]. O tratamento [hemodiálise] é muito agressivo”, afirmou José Gilson antes de ser operado.

 

Minutos antes do transplante – Foto: Breno Esaki/Agência Saúde-DF

A internação no ICDF ocorreu no dia 26 de agosto, um dia antes do transplante. Nesse dia, Gilson fez sua última sessão de hemodiálise e estava confiante e otimista. Durante a sessão, ele recebeu orientações do enfermeiro nefrologista Thiago Martins, que integra a equipe de transplantes do ICDF. “A expectativa é de que essa seja sua última sessão de hemodiálise. Lógico que nós vamos avaliar no pós-cirúrgico a necessidade, ou não, se isso acontecer não é comum, mas vamos fazer de acordo com a evolução dos seus exames laboratoriais. A gente está na torcida para que seja realmente a última e que você possa seguir com a sua nova vida longe dessa máquina. Sucesso e obrigado por confiar na nossa equipe do ICDF”, disse à época.

 

Emocionado, Gilson agradeceu o gesto da irmã. “É um ato de amor a pessoa doar-se para passar o que ela vai passar, sendo uma pessoa saudável, tendo todas as atividades de trabalho. Ela tirou um momento da vida dela para me dar a vida também. Tenho que ficar agradecido pelo resto da minha vida e vou carregar dentro de mim um pedacinho dela”, ressalta.

 

O grande dia

 

Foi na tarde do dia 27 de agosto que um novo capítulo foi escrito na vida de José Gilson. Após um ano na lista de espera, o grande dia chegou. Ele e a irmã foram conduzidos para o centro cirúrgico: um na sala de doador e outro na sala de receptor. Sedados, eles não viram todo o trabalho que a equipe multiprofissional fez ao retirar o rim de um e transplantar no outro.

 

Foto: Breno Esaki/Agência Saúde-DF

As cirurgias foram bem sucedidas e, a partir daquele momento, os irmãos estavam mais unidos do que nunca. O rim de Aparecida trabalhava no corpo de José Gilson e devolvia a ele a tão sonhada qualidade de vida.

 

“O José Gilson é nosso transplante número 300. Neste ano o ICDF realizou 27 transplantes renais, sendo 11 transplantes intervivos e 16 transplantes com doadores falecidos”, informou a médica Helen Souto Siqueira Cardoso, que fez um apelo para que as pessoas que desejam ser doadoras comuniquem seus familiares e para que os familiares autorizem a doação.

O rim retirado de Aparecida sendo levado à sala de receptor para ser transplantado em José Gilson – Foto: Breno Esaki/Agência Saúde-DF

“A doação interviva não conseguirá suprir a demanda tão crescente nos últimos anos por transplantes renais. Por isso é muito importante que você comunique à sua família o desejo de doar órgãos. Doe órgãos, diga sim à vida”, exalta.

 

Foto: Breno Esaki/Agência Saúde-DF

 

A volta para casa

 

Já em condições de retornar para casa e livre das sessões de hemodiálise, José Gilson recebeu alta no dia 31 de agosto e já está recuperado da cirurgia, bem como sua irmã Aparecida. A saída do hospital foi carregada de emoção, alívio e um sentimento de vitória.

 

“O pós-cirúrgico está indo bem, as dores que a gente sente é normal. A diferença é que não estou fazendo hemodiálise. Espero que esse rim que ganhei de presente dure por muitos anos”, afirma.

 

Gilson e a irmã Aparecida antes da cirurgia, em agosto – Foto: Breno Esaki/Agência Saúde-DF

Aparecida observa a qualidade de vida que o irmão ganhou quase um mês após receber o rim. “Só quem faz hemodiálise sabe o sofrimento que é. A pessoa fica muito debilitada. Ter que ir com frequência para esse tratamento – que é necessário mas deixa a pessoa muito debilitada – é muito difícil. Eu vendo ele hoje nada se compara com o que era antes, de ele não estar mais fazendo hemodiálise. É muito bom ver isso, saber que eu trouxe isso, que eu trouxe qualidade de vida para o meu irmão, não só para ele, mas para a esposa, filhos e todos que viam o sofrimento dele e sofriam juntos”, declara.

 

Em casa, já com sua família, ele agradeceu o gesto de amor que recebeu. “Que sirva de lição e aprendizado: a pessoa pode doar um rim. Às vezes, a falta de informação faz com que as pessoas tenham medo de fazer a doação e, até a pessoa que vai receber, igual era meu caso, tenha medo também de comprometer a vida da outra pessoa. Informe seus familiares, procure informação. Hoje estou muito bem, agradecido a Deus, a ela por esse gesto, e que isso sirva de incentivo a todos que tenham esse mesmo gesto de amor, que é o gesto de doação”, finaliza José Gilson.

 

E você, teria coragem de fazer o mesmo por quem você ama?

 

GALERIA DE FOTOS:

 

Doar órgão é doar vida e permitir um novo recomeço