Governo do Distrito Federal
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10/10/21 às 11h52 - Atualizado em 14/10/21 às 19h02

Menos julgamentos, mais tratamento: o desafio de enfrentar a obesidade

Dia Nacional da Prevenção da Obesidade é celebrado nesta segunda-feira (11) e lembra a importância de debater a doença

 

HUMBERTO LEITE, DA AGÊNCIA SAÚDE-DF

 

Não é uma questão moral, meramente estética ou mesmo individual: a obesidade é um problema a ser enfrentado de maneira profissional pelos serviços de saúde para garantir o bem-estar da população. O desafio é lembrado todos os anos em 11 de outubro, Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, e diariamente faz parte do trabalho da Secretaria de Saúde do DF, desde o atendimento na rede de atenção primária até o acompanhamento especializado.

 

“A obesidade não é apenas uma questão de força de vontade. Depende do ambiente em que a pessoa está inserida, depende da oferta de alimentos no ambiente em que a pessoa reside ou trabalha”, explica a gerente de Serviços de Nutrição da Secretaria de Saúde do DF, Carolina Rebelo.

Tratamento da obesidade começa nas UBSs. Foto: Breno Esaki/Agência Saúde-DF

Dentro da estratégia de saúde da família, por vezes, toda a alimentação de uma família deve ser modificada, por exemplo. “É uma doença multifatorial, então não existe um fator que seja mais importante do que outro para o desenvolvimento da obesidade. Pode envolver questões psicológicas, uso de medicamentos, mau hábito alimentar, sedentarismo…”, completa a nutricionista.

 

A porta de entrada para o tratamento na rede são as Unidades Básicas de Saúde. É onde os pacientes, que muitas vezes procuram a assistência médica por queixas diversas, recebem o primeiro acompanhamento para tratar a obesidade. Desde o início o tratamento é interdisciplinar, com nutricionistas, psicólogos, endocrinologistas e cardiologistas.

 

Dependendo do caso, a pessoa poderá ser encaminhada para uma unidade especializada, como o CEDOH. É essa a sigla do Centro Especializado em Diabetes, Obesidade e Hipertensão, localizado na Asa Norte. Ali, uma equipe multidisciplinar para acompanhar o desenvolvimento dos pacientes em diversos aspectos da vida.

 

“Não basta só fazer dieta e atividade física: existe todo o contexto, como controlar o stress, uma boa quantidade de sono, ingestão de água. Por isso é muito importante ter uma equipe multiprofissional”, conta a endocrinologista Alexandra Rubim, gerente do CEDOH. O encaminhamento para cirurgias bariátricas ocorre tão somente com o aval da equipe, que analisa o caso de cada paciente.

 

Acolhimento e união de esforços

 

A palavra-chave do atendimento é acolhimento. “A pessoa fica envergonhada, se sente julgada. Quando ela chega a um serviço de saúde onde ela é acolhida, onde ela é ouvida, isso traz todo um impacto diferente”, diz Alexandra. Combater o preconceito é uma das metas da Secretaria de Saúde, e o tema esteve em pauta em capacitações que chegaram a cerca de 240 servidores nos últimos anos, todos com a responsabilidade de atuarem como multiplicadores nas suas unidades. As formações também incluíram os procedimentos de como acolher os pacientes e encaminhar o tratamento.

Isso porque outro aspecto apontado como relevante é necessidade da abordagem múltipla. “Não é possível realizar o enfrentamento da obesidade sem que haja ações intersetoriais”, diz a nutricionista Carolina Rebelo.

 

Ações educativas, de esporte, de lazer, de transportes e até de segurança pública entram no enfrentamento integral da obesidade como uma doença em ampla expansão na sociedade. No DF, destacam-se, por exemplo, as iniciativas da Secretaria de Educação para combater a obesidade infantil e os projetos de segurança alimentar da Secretaria de Desenvolvimento Social, que incentivam o consumo de alimentos saudáveis pela população em vulnerabilidade.

 

“A meta não é ser magro, é ter consciência”

 

A frase é da Regina Lopes, de 53 anos. Quatro anos atrás, a moradora do Guará, com 1,57m de altura, chegou aos 106 quilos. “Eu cheguei a um ponto em que achava que estava com outra doença”, conta. A estratégia para vencer o desafio de controlar o peso teve como foco o acolhimento.

 

O tratamento começou na UBS 1 do Guará, a mais próxima da residência. Capacitado, o médico de plantão soube explicar que o desafio de saúde era enfrentar a obesidade. “Se todo profissional de saúde agisse dessa forma, talvez o índice de obesidade no Brasil não tivesse tão alto. Entre o paciente e o profissional de saúde tem que existir a sinceridade. Entre os familiares também deve existir isso”, diz Regina.

Obesidade pode causar diversas doenças. Foto: Breno Esaki/Agência Saúde-DF

Encaminhada ao CEDOH, ela participou de atendimentos em grupo por dois anos. O diferencial, revela, foi a presença de uma equipe capacitada. “Foi um período de muito acolhimento, de muito trabalho, um trabalho árduo. Eu tive nutricionista, endrocrinologista, psicólogo, terapeuta. Fui muito bem assistida. Tem os profissionais de saúde e tem a nossa boa vontade também”.

 

Hoje, com cuidados na alimentação e prática de exercícios físicos, ela se orgulha por conseguir se manter na faixa de peso esperada para o seu biotipo e, principalmente, por se sentir com uma qualidade de vida maior. “Eu não sou magra, nem sou gorda. Eu estou em um peso bacana. Estou me sentindo bem”.

 

Aumento do número de casos

 

Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, o excesso de peso atinge 96 milhões de pessoas. Entre 2003 e 2021, a proporção de indivíduos com obesidade saltou de 12% para 26% da população. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/2019) apontam que a condição de obesidade já alcança cerca de 41,2 milhões de adultos, também com distribuição maior em mulheres (29,5%) do que em homens (21,8%).

 

No DF, dados da Secretaria de Saúde apontam que entre os adultos acompanhados pela Atenção Primária a Saúde, cerca 70,28% estavam com excesso de peso em 2020, contra 59,84% em 2015. O excesso de peso foi registrado, no ano passado, também em 55,04% dos idosos, 50,4% das gestantes, 34,98% dos adolescentes, 27,9% das crianças de 5 a 10 anos de idade e 7,87% das crianças abaixo dos 5 anos.

 

A obesidade é apontada como fator de risco para doenças cardiovasculares, distúrbios musculoesqueléticos, problemas psicológicos e câncer. A preocupação aumentou com a pandemia de Covid-19: pacientes nesta condição apresentaram maiores complicações, tempo de internação e índice de óbitos.

 

Quem é considerado obeso?

 

O critério utilizado para avaliar e classificar o estado nutricional de uma pessoa é o Índice de Massa Corporal (IMC), de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde. A fórmula para o cálculo do IMC é peso (em kg) dividido pelo quadrado da altura (em metros). Por exemplo: uma pessoa de 80 quilos e 1,70 de altura deve dividir 82 por 1,70×1,70, obtendo o IMC de 27,68.

 

A pessoa é classificada com excesso de peso quando o IMC é igual ou superior a 25 kg/m² e classificada com obesidade quando o IMC é igual ou superior a 30 kg/m². Vale lembrar também que a doença possui três estágios: a obesidade de grau 1 (IMC>30 kg/m² e IMC<35 kg/m²), a obesidade de grau 2 (IMC>35 kg/m² e IMC<40 kg/m²) e o estágio mais grave, que é a obesidade de grau 3 (IMC>40).