Hospital da Criança de Brasília recebe habilitação para tratamentos com terapia gênica
Hospital da Criança de Brasília recebe habilitação para tratamentos com terapia gênica
Decisão do Ministério da Saúde beneficia crianças com atrofia muscular espinhal
Agência Brasília
O Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) recebeu habilitação do Ministério da Saúde para realização de terapia gênica. O HCB é o único hospital do Centro-Oeste e o único com dedicação 100% pediátrica a receber a habilitação: além dele, apenas o Hospital das Clínicas de Porto Alegre (RS) e o Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (SP) também foram autorizados a realizar esse tipo de tratamento no país.
Segundo a coordenadora do serviço de neuropediatria e responsável técnica pelo ambulatório de doenças neuromusculares e terapias gênicas do HCB, Janaína Monteiro, a habilitação do hospital é um reflexo de mudanças nos protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde. “O PCDT incluiu as crianças de até seis meses e definiu que elas teriam direito a fazer a terapia gênica. Só que, no fluxo do ministério, só se pode infundir essa medicação nos centros habilitados que demonstrem ter os profissionais e as condições adequadas de lidar com a terapia”, explica Monteiro.
De perfil terciário e voltado ao tratamento de doenças crônicas e complexas, o Hospital da Criança de Brasília comprovou que sua estrutura física é adequada para administrar terapia gênica e preparou a equipe que seria envolvida nesse tipo de tratamento. “Os primeiros profissionais foram treinados: enfermeiros, médicos, farmacêuticos. Também tivemos que apresentar toda a nossa estrutura de UTI e de fisioterapia”, conta a neurologista. A primeira aplicação deste tipo de terapia no HCB foi realizada em maio de 2025, quando uma criança diagnosticada com atrofia muscular espinhal (AME) recebeu a medicação zolgensma.
A AME é uma doença genética que afeta o neurônio da medula espinhal e desencadeia um processo degenerativo e progressivo causada pela ausência de uma proteína essencial para a sobrevivência do neurônio motor. A doença acomete o bebê ainda na fase gestacional e pode levar a óbito, em sua forma mais grave, ou fazer com que o paciente perca a capacidade de movimentação e fique preso à ventilação mecânica, embora a inteligência se mantenha preservada.
A terapia gênica utiliza um vetor viral e interfere no gene responsável pela produção da proteína necessária para a sobrevivência do neurônio motor. É importante que o diagnóstico seja precoce — por isso, desde 2021, a AME é uma das doenças detectadas pela triagem neonatal na rede pública de saúde do Distrito Federal.
O Hospital da Criança de Brasília acompanha, atualmente, 50 pacientes com AME. Depois que a criança é encaminhada ao HCB e diagnosticada, a equipe multidisciplinar inicia o tratamento, inclusive verificando se é um caso elegível para o uso do zolgensma. “Temos exames pré-infusionais, avaliando fígado, troponina, a parte cardíaca, para ver se a criança está clinicamente adequada para receber a terapia”, explica Monteiro. Após a infusão do medicamento, o paciente também precisa fazer uso crônico de corticoide e é monitorado semanalmente para acompanhar a resposta à terapia gênica.
Embora não haja crianças do Distrito Federal com prescrição do zolgensma atualmente, o HCB atende às pessoas que vêm de outros estados brasileiros. É o caso de Romanna Duarte, sete meses, que veio de Mossoró (RN) para Brasília. “Com um mês e meio, ela parou de mexer os braços e as pernas. Ela nasceu em maio e, dois meses depois, a gente teve o diagnóstico de atrofia muscular espinhal”, relata a mãe de Romanna, Rayanna Duarte.
Depois de receber o remédio, Romanna segue acompanhada pela equipe do HCB. “Até o momento, ela tem reagido superbem. Depois da alta, vamos para um hotel e vamos passar alguns dias aqui para continuar acompanhando de pertinho, coletar exames. Caso haja alguma urgência, a gente corre para cá, temos o cartão vermelho”, explica a mãe da bebê.
Segundo Janaína Monteiro, a habilitação do HCB é uma conquista: “Começamos a trabalhar com esse grupo de pacientes visando mais ao cuidado paliativo, com uma equipe multidisciplinar que se mantém e que é necessária até hoje, mas não tínhamos possibilidades de tratamento que modificasse a doença. Poder oferecer isso dentro do hospital público, tudo pelo SUS, realmente é um sonho”.
*Com informações do HCB